O que é deepfake, como identificar e regras do TSE em 2026
Deepfake é um vídeo, áudio ou imagem falso criado por IA para parecer real. Veja como a tecnologia funciona, os sinais que ajudam a identificar uma falsificação, as regras do TSE para as eleições de 2026 e os canais para denunciar.
- Autor
- Gabrielly Vizzotto Cruz
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- 10 min
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Um vídeo de um candidato dizendo algo que ele nunca disse. Um áudio no WhatsApp com a voz idêntica à de um parente pedindo dinheiro. Uma foto realista de um evento que nunca aconteceu. Tudo isso pode ser um deepfake. Com a inteligência artificial cada vez mais acessível, ficou difícil separar o real do inventado.
Nas eleições de 2026, o tema ganhou ainda mais peso: o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proíbe o uso de deepfakes na propaganda eleitoral, e quem descumprir a regra pode ter o registro de candidatura ou o mandato cassado.
Neste artigo, você vai entender o que é deepfake, como a tecnologia funciona, quais sinais ajudam a identificar um conteúdo falso e o que dizem as regras do TSE.
O que é deepfake?
Deepfake é um conteúdo falso — vídeo, áudio ou imagem — criado ou alterado por inteligência artificial para parecer real. A técnica permite trocar o rosto de uma pessoa por outro, sincronizar os lábios com uma fala inventada ou clonar uma voz a partir de poucos segundos de gravação.
O termo junta duas palavras em inglês: deep learning (aprendizado profundo, um ramo da IA) e fake (falso). Ele se popularizou em 2017, quando um usuário do Reddit identificado como "deepfakes" passou a publicar vídeos com rostos de celebridades inseridos em outras gravações.
Como a tecnologia funciona
Os deepfakes são produzidos por modelos de IA treinados com muitas fotos, vídeos ou áudios da pessoa que será imitada. As abordagens mais comuns são:
- Redes adversariais generativas (GANs, do inglês generative adversarial networks): duas redes neurais competem entre si. Uma gera o conteúdo falso; a outra tenta detectar a falsificação. A disputa se repete até que o resultado fique convincente.
- Autoencoders: o modelo aprende a "codificar" as expressões de um rosto e a reconstruí-las sobre o rosto de outra pessoa — a base da troca de rostos (face swap).
- Modelos de difusão e de voz: ferramentas mais recentes geram imagens, vídeos e falas do zero a partir de um simples comando de texto.
O que antes exigia computadores potentes e conhecimento técnico hoje cabe em aplicativos de celular. Por isso, o volume de deepfakes cresceu tanto nos últimos anos.
Tipos de deepfake
Os deepfakes aparecem em quatro formatos principais:
| Tipo | O que faz | Exemplo comum |
|---|---|---|
| Troca de rosto (face swap) | Coloca o rosto de uma pessoa sobre o corpo de outra em um vídeo | Político "aparecendo" em um evento do qual não participou |
| Sincronização labial (lip sync) | Altera os movimentos da boca para combinar com uma fala nova | Candidato "declarando" algo que nunca disse |
| Clonagem de voz | Reproduz o timbre e o jeito de falar de alguém | Áudio falso de parente pedindo Pix |
| Imagem sintética | Gera fotos realistas de pessoas ou cenas que não existem | Foto montada de um candidato em situação comprometedora |
Nem todo uso da tecnologia é criminoso
Ela aparece de forma legítima no cinema (rejuvenescimento de atores), na dublagem, na publicidade autorizada e em aplicações de acessibilidade, como devolver a voz a pessoas que a perderam. O problema está no uso para enganar, difamar ou manipular, e é aí que entram a lei e as regras eleitorais.
Por que o deepfake é perigoso?
O maior risco do deepfake é explorar a confiança que temos no que vemos e ouvimos. Os principais usos maliciosos são:
- Golpes financeiros: criminosos clonam a voz ou o rosto de familiares, executivos ou famosos para pedir transferências ou divulgar falsos investimentos.
- Desinformação política: vídeos e áudios falsos atribuem a candidatos falas e atitudes inventadas, muitas vezes divulgados perto da votação, quando sobra pouco tempo para desmentir.
- Ataques à reputação e à intimidade: montagens de nudez sem consentimento atingem sobretudo mulheres e podem configurar crime.
- Descrédito do que é real: quando qualquer conteúdo pode ser falso, até gravações verdadeiras passam a ser contestadas como "deepfake".
A boa notícia é que muitos deepfakes ainda deixam rastros. Veja como reconhecê-los.
Como identificar um deepfake: 12 sinais de alerta
Nenhum sinal isolado prova que um conteúdo é falso, e os deepfakes melhoram a cada ano. Por isso, o mais seguro é combinar a observação de detalhes com a checagem do contexto.
Sinais no vídeo e na imagem
- Olhos e piscadas: piscadas raras, irregulares ou olhar "vidrado".
- Boca e dentes: lábios fora de sincronia com o áudio, dentes borrados ou sem contorno definido.
- Bordas do rosto: contornos tremidos ou borrados perto do cabelo, das orelhas e do pescoço.
- Pele: textura lisa demais, como se tivesse filtro, ou tom diferente do pescoço e das mãos.
- Luz e sombras: iluminação do rosto que não combina com o ambiente.
- Mãos e detalhes: dedos a mais ou deformados, óculos e brincos que mudam de forma, textos ilegíveis ao fundo.
Sinais no áudio
- Voz monótona, sem respiração natural ou com pausas em lugares estranhos.
- Sotaque, ritmo ou expressões que não combinam com a pessoa.
- Ausência total de ruído ambiente ou cortes bruscos no som.
Sinais no contexto
- Fonte: o conteúdo surgiu em perfil desconhecido ou em grupo de mensagens, sem veículo confiável por trás?
- Apelo emocional: ele provoca raiva, medo ou urgência ("compartilhe antes que apaguem")?
- Coerência: a fala combina com o que a pessoa costuma dizer e com o que foi noticiado?
Como checar
- Pesquise o assunto em sites de notícias e agências de checagem, como Lupa, Aos Fatos, Estadão Verifica e Fato ou Fake (g1).
- Faça uma busca reversa de imagem (Google Lens ou TinEye) com um print do vídeo ou da foto.
- Procure o rótulo de conteúdo gerado por IA nas plataformas e nos metadados do arquivo.
- Em golpes por áudio ou vídeo, ligue de volta para a pessoa usando um número que você já tem salvo.
- Na dúvida, não compartilhe.
Deepfake nas eleições 2026: o que diz o TSE
O deepfake é proibido na propaganda eleitoral brasileira, e quem o usar pode perder o registro de candidatura ou o mandato. A regra foi criada pelo TSE para as eleições municipais de 2024, com a Resolução nº 23.732/2024, e endurecida para 2026 pela Resolução nº 23.755/2026, aprovada em 2 de março de 2026. As duas alteram a Resolução nº 23.610/2019, que trata da propaganda eleitoral.
O que vale nas eleições de 2026
| Regra | O que determina | Onde está |
|---|---|---|
| Proibição do deepfake | Veda conteúdo fabricado ou manipulado para favorecer ou prejudicar candidaturas, mesmo com autorização de uso da imagem ou da voz | Res. 23.610, art. 9º-C, § 1º |
| Punição | O uso configura abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, com cassação do registro ou do mandato | Res. 23.610, art. 9º-C, § 2º |
| Rótulo obrigatório | Toda propaganda com conteúdo gerado por IA deve avisar, de forma explícita, destacada e acessível, que foi fabricada ou manipulada e qual tecnologia foi usada | Res. 23.610, art. 9º-B |
| Janela de bloqueio | Proíbe publicar, republicar ou impulsionar novos conteúdos de IA com imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas nas 72 horas antes e nas 24 horas depois da votação, mesmo com rótulo | Res. 23.610, art. 9º-B, § 3º-A |
| Remoção imediata | Conteúdo de IA fora das regras deve ser removido na hora ou ter o serviço indisponibilizado | Res. 23.610, art. 9º-B, § 4º |
| Neutralidade dos chatbots | Sistemas de IA não podem ranquear, recomendar ou priorizar candidatos, opinar ou indicar preferência de voto, nem criar cenas de nudez ou sexo envolvendo candidatos, mesmo que o usuário peça | Res. 23.610, art. 28, § 1º-C |
| Ônus da prova | Quando for tecnicamente difícil comprovar a manipulação, o juiz pode inverter o ônus da prova: o acusado é que precisa demonstrar que o conteúdo é lícito e explicar como a IA foi usada | Res. 23.610, art. 9º-I |
No 1º turno, em 4 de outubro de 2026, a janela de bloqueio começou em 1º de outubro e vai até 5 de outubro. A regra se repete no 2º turno, marcado para 25 de outubro, nas disputas que forem para nova votação: nesse caso, a vedação vale de 22 a 26 de outubro. Fora desse período, usar IA na campanha é permitido, desde que o conteúdo esteja rotulado e não seja um deepfake.
O que o TSE considera deepfake
Em 1º de setembro de 2026, o TSE fixou, por 5 votos a 2, uma tese que orienta os juízes eleitorais. Segundo o TSE, deepfake é o conteúdo sintético, feito ou alterado por IA, com realismo suficiente para criar, reproduzir ou alterar a imagem, a voz ou a fala de uma pessoa viva, falecida ou fictícia.
A tese também definiu que a proibição só se aplica quando o conteúdo for propaganda eleitoral. No caso julgado, o tribunal rejeitou, por 4 votos a 3, multar o candidato Flávio Bolsonaro (PL) por um vídeo que recriou com IA a imagem e a voz de Jair Bolsonaro. Segundo o tribunal, o vídeo foi exibido em uma convenção partidária fechada, para filiados, como manifestação de apoio político e sem pedido de voto ao eleitorado. Por isso, não se enquadrou como propaganda eleitoral.
Na prática, conteúdos de IA que não sejam propaganda eleitoral ficam fora da proibição de deepfake prevista nas regras do TSE. Já ajustes técnicos de qualidade de imagem e som e elementos gráficos de identidade visual nem precisam do rótulo de IA (Res. 23.610, art. 9º-B, § 2º).
Encontrou um deepfake eleitoral? Saiba como denunciar
Segundo o TSE, a Justiça Eleitoral tem dois canais, e a escolha depende do tipo de conteúdo:
| Canal | Quando usar | Exemplo |
|---|---|---|
| Pardal | Irregularidades de candidatos, partidos e propaganda | Vídeo enganoso de candidato ou propaganda com IA sem rótulo |
| Siade (Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral) | Desinformação que ameaça a integridade da eleição | Notícia falsa sobre a urna eletrônica ou perfil que imita a Justiça Eleitoral |
O Siade aceita denúncias anônimas. Para agilizar a análise, informe:
- A plataforma onde o conteúdo está (Instagram, TikTok, WhatsApp etc.).
- O link exato da publicação.
- Se alguma agência de checagem já analisou o conteúdo.
- Por que você acha que ele é falso.
- Um print da tela que mostre a publicação.
Você também pode denunciar o conteúdo na própria rede social: as regras do TSE obrigam as plataformas a remover deepfakes e conteúdos de IA sem rótulo. Se o deepfake atingir você fora do contexto eleitoral, como em golpes ou montagens íntimas, registre boletim de ocorrência na polícia.
Conclusão
Entender o que é deepfake é o primeiro passo para não cair nele. A tecnologia vai continuar evoluindo, e os sinais visuais tendem a ficar mais sutis. Por isso, desconfiar de conteúdos que provocam emoção forte, checar a fonte antes de compartilhar e denunciar o que parecer falso são hábitos que protegem você e a eleição.
As regras do TSE para 2026 estão entre as mais detalhadas já adotadas no Brasil: rótulo obrigatório para IA, proibição total do deepfake na propaganda e cassação para quem descumprir. A fiscalização, porém, também depende do eleitor: se encontrar um conteúdo suspeito, use o Pardal ou o Siade e ajude a manter a eleição limpa.
Perguntas frequentes
O que é deepfake, em poucas palavras?
É um vídeo, áudio ou imagem falso criado com inteligência artificial para parecer real, normalmente imitando o rosto ou a voz de uma pessoa.
Deepfake é crime?
Depende do uso. Na propaganda eleitoral, o deepfake é proibido e pode levar à cassação do registro ou do mandato. Fora das eleições, pode configurar crimes como estelionato, calúnia, difamação ou registro não autorizado da intimidade sexual, que inclui montagens (art. 216-B do Código Penal). Desde 2025, a pena para violência psicológica contra a mulher também aumenta quando o crime envolve IA (Lei 15.123/2025).
Candidatos podem usar inteligência artificial na campanha?
Sim, desde que o conteúdo tenha rótulo informando o uso de IA e não seja um deepfake. Nas 72 horas antes e nas 24 horas depois da votação, novos conteúdos de IA com imagem ou voz de candidatos ficam proibidos mesmo com rótulo.
Posso perguntar a um chatbot em quem votar?
Pode perguntar, mas pelas regras do TSE a ferramenta não pode recomendar candidatos, ranquear candidaturas nem indicar preferência de voto.
Existe aplicativo que detecta deepfake com certeza?
Não. Ferramentas de detecção ajudam, mas erram. A combinação de observação atenta, checagem da fonte e consulta a agências de verificação continua sendo a melhor defesa.
O que fazer se eu receber um áudio falso pedindo dinheiro?
Não faça nenhuma transferência. Desligue e ligue para a pessoa por um número que você já tenha salvo, ou combine uma palavra de segurança com a família. Se perdeu dinheiro, avise o banco na hora para tentar o bloqueio pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Pix e registre boletim de ocorrência.

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